Francisco Sandro Menezes-Rodrigues1
O enfarte agudo do miocárdio (EAM) é caracterizado por lesões isquémicas que comprometem gravemente a estrutura e função cardíaca e até a sobrevivência dos mamíferos. Ð As doenças isquémicas do coração (CDI) estão relacionadas com milhões de mortes por ano no mundo [1,2]. Embora a terapêutica convencional se baseie na reperfusão cardíaca (R), este procedimento aumenta o dano cardíaco causado pela isquemia (I) e arritmias graves (por exemplo, arritmias ventriculares e bloqueio auriculoventricular) [2-5]. Vários relatos demonstraram que as arritmias cardíacas causadas por isquemia e reperfusão miocárdica (I/R) podem ser originadas por desequilíbrio bioenergético e eletroquímico desencadeado principalmente pela diminuição da síntese de ATP pelas mitocôndrias e sobrecarga citosólica de Ca2+ nos cardiomiócitos [2-5]. Ð A sobrecarga de Ca2+Ls é enormemente agravada pelo aumento do fluxo de Ca2+Ln através dos canais de Ca2+ ativados por voltagem do tipo L (VACC) causado pela despolarização contínua da membrana dos cardiomiócitos durante a I/R cardíaca [2-5]. Além disso, a sobrecarga de Ca2+ citosólico promove o Ca2+ acumulado na matriz mitocondrial através do aumento do fluxo de Ca2+ através do uniportador mitocondrial, levando ao colapso bioenergético mitocondrial e à produção excessiva de radicais livres, o que compromete a estrutura e função das mitocôndrias e de outras organelas citoplasmáticas [2 -5]. Estes mecanismos celulares contribuem de forma importante para o desenvolvimento de arritmias e morte em doentes com EAM. Apesar dos avanços contínuos no tratamento do EAM, uma elevada proporção de doentes morre subitamente nas primeiras horas antes de chegar ao hospital [6-9]. A maioria destas mortes precoces deve-se a arritmias ventriculares complexas (AV) e bloqueio auriculoventricular (BAV) [6-9]. Surpreendentemente, ainda falta conhecimento sobre os eventos exatos destas arritmias malignas precoces e os seus mecanismos celulares e moleculares.